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Agro, tributos e recuperações judiciais

Em que medida as alterações tributárias ocorridas nos últimos anos podem explicar os elevados e preocupantes índices de recuperações judiciais no agro

Redação Pitoco04 de maio de 2026
Agro, tributos e recuperações judiciais

Entre o ano passado e o começo deste, o jornal “Valor Econômico” e a “Veja” publicaram reportagens dando conta do aumento dos pedidos de recuperação judicial por parte de empresas de variados setores. Pior ainda, o “Valor” de dezembro de 2025 informou que, das empresas que ingressaram com recuperação judicial, 40% tiveram falência decretada. Considerando o grupo de empresas que retomaram as atividades, 37% faliram depois.

Mais recentemente, no último dia 7 de abril foi a vez do “Estadão” colocar o tema em pauta, adicionando um dado desconcertante: do total de pedidos de recuperação, cerca de 30% vieram de empresas do agronegócio, que de longa data é o motor do crescimento do País e o coração econômico de Cascavel e do Oeste paranaense.

Segundo economistas consultados, os altíssimos juros bancários são os grandes vilões das derrocadas, porque encarecem o crédito, machucam margens de lucros e sangram o caixa das empresas. Há uma forte chance de a leitura estar correta, mesmo porque, segundo reportagem da “Gazeta do Povo” de 9 de abril, os atuais patamares dos juros são os maiores em nove anos.

ARROCHO TRIBUTÁRIO

Todavia, arrisco dizer que o arrocho tributário dos últimos anos também é parte do problema. Cancelamento de benefícios fiscais, inclusive sobre alimentos produzidos na cadeia do agronegócio, restrições ao uso de créditos fiscais ao abatimento de outros tributos, aumento direto do imposto de renda de pessoas jurídicas, aumento do IOF, entre outros, são medidas que, somadas, contribuem ao aumento de despesas, minam o fluxo de caixa e encarecem ainda mais o crédito bancário. Isso sem contar o novo imposto sobre altas rendas, que é um verdadeiro convite aos empresários afetados a se mudar do país, quem sabe pela sedução de carga tributária praticamente nula nos vizinhos Paraguai e Uruguai.

Tempos difíceis demandam ações calculadas e medidas à suavização da carga tributária devem estar na ordem do dia. Benjamin Franklin teria dito, certa feita, que, na vida, existem duas certezas: os impostos e a morte. Bem, o atual contexto da economia brasileira reinventa o filósofo: por aqui, as empresas estão morrendo de impostos.

  • Em tempo: é com muita satisfação e empolgação que inauguro esta coluna no Pitoco. Vim a Cascavel para acompanhar a etapa Stock Car 2026, na condição de patrocinador de piloto, e tive o prazer de conhecer a equipe do jornal. Foi então que fui convidado a fazer parte do time.

Adolpho Bergamini é advogado e professor de Direito Tributário, mestre na área pela FGV/SP. O autor também é colunista no site da revista “Veja Negócios”.

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