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Profundezas do gigante

Fundações do maior prédio da cidade devoram 114 caminhões de concreto e 115 toneladas de gelo para “enraizar” o colosso que emergirá a 150 metros de altura

Redação Pitoco11 de maio de 2026
Profundezas do gigante

Abril de 2026, o maior e mais ambicioso projeto de verticalização da cidade chega a um momento emblemático e desafiador para a equipe de engenharia. É hora de concretar o bloco central de fundação do edifício Miami, da FD Empreendimentos, na rua Rio Grande do Sul, confluência com a Osvaldo Cruz.

É o ponto alto de um trabalho intenso que começou 90 dias atrás com a montagem de armadura, formas e tratamento de 181 estacas que desceram a 30 metros de profundidade. Aqui um detalhe que poucos dominam: naquela região, outrora conhecida como “Vila Sapo”, houve processos de aterro décadas atras.

Porém, o avanço da tecnologia e equipamentos (confira na página seguinte) permite espetar a estaca na rocha firme, e assegurar todos os mais exigentes requisitos técnicos para sustentar um gigante de 150 metros de altura que passará a compor o ponto culminante do skyline de Cascavel.

114 CAMINHÕES

Concretar o bloco de três metros de altura, 14 de largura e 25 de comprimento mobilizou equipes inteiras de empresas parceiras. A divisão de concreto da Pedreira Trevo foi inteiramente mobilizada para a missão. Foram 15 caminhões atuando simultaneamente em 114 cargas de 9,5 metros cúbicos cada, totalizando mais de mil metros cúbicos de concreto.

Aqui cabem detalhes que os leigos jamais poderiam imaginar: “temperar” o concreto exige mais que misturar aleatoriamente brita, cimento, areia e água. Um especialista que atua no Senna Tower - maior edifício residencial do planeta em construção em Balneário Camboriú - veio a Cascavel monitorar o “ponto” exato da concretagem.

TONELADAS DE GELO

Um bloco dessa dimensão pede cuidados especiais. Um deles está na temperatura da massa. Para assegurar que toda essa tonelagem de concreto chegasse ao bloco a menos de 20 graus foram adicionadas 100 toneladas de gelo nas betoneiras da frota de caminhões. E como faz para mobilizar tanto gelo, se estamos a milhares de quilômetros das geleiras mais próximas, como na Patagônia argentina? A empresa contratada montou um “consórcio”. Parte do gelo veio de Toledo e da distante Laranjeiras do Sul para completar o “iceberg” que foi depositado no bloco.

“Contratamos consultorias altamente especializadas em várias áreas. Sustentar um edifício dessa dimensão exige uma logística gigante, tudo tem que caminhar conforme foi exaustivamente projetado, gera algum nível de ansiedade, mas nenhuma intercorrência foi registrada e a concretagem foi sucesso pleno”, afirma o engenheiro Roger André Luttjohann.

Em analogia com as formas sábias da natureza, o engenheiro afirma que blocos e estacas são raízes do edifício. São 30 metros para baixo e 150 metros para cima. O bloco concretado nesse abril é o maciço que dará sustentação e base para o maior edifício do Paraná, com igual somente na capital do estado.

Bomba de 32 metros esvazia betoneiras em seis minutos

“Bombar” tamanha quantidade de concreto nas fundações do edifício Miami não era papel para qualquer CNPJ. A Pedreira Trevo é veterana, fundada em março de 1971. Seu braço concreteiro nasceu em 2018. E são braços longos.

O caminhão bomba, capaz de esvaziar um caminhão betoneira com 9,5 metros cúbicos de concreto em 6 minutos, ostenta nada menos que 32 metros de tubulação.

Quando a dupla de gigantes edifícios do Square, ao lado do JL Shopping, precisou recentemente concretar suas imensas lajes, também convocou a turma da Trevo. A nova unidade industrial da Consilos, em construção na confluência das rodovias 163 e 277, talvez a maior planta horizontal da cidade, também está sendo atendida pelos braços longos da Trevo.

“São poucas as empresas no Paraná com a estrutura que dispomos. Um caminhão bomba como o utilizado nas grandes obras que atendemos custa cerca de R$ 4 milhões”, descreve o gerente do braço concreteiro da Trevo, Pedro Guerra.

Segundo ele, outro ativo central da empresa, para além do equipamento, é o pessoal qualificado e o material superior para a concretagem. “Concretar o bloco do edifício Miami foi mais um grande desafio vencido pelo nosso time”, afirma Guerra.

Empresa investigou área com tecnologia de ponta

  • A Fundati Engenharia Geotécnica teve papel decisivo no Edifício Miami, atuando da investigação à validação das fundações. O subsolo foi estudado por sondagens, que fornecem índices e parâmetros para identificar as camadas do solo, assim como presença de água e afloramento de rocha.

  • A solução adotada para resolver a fundação foi a estaca hélice contínua monitorada. Processo que consiste na perfuração com trado contínuo até a profundidade de projeto e, em seguida, concretagem sob pressão simultânea à retirada da hélice, garantindo estabilidade das perfurações.

  • Com monitoramento em tempo real de parâmetros como profundidade, torque, velocidade de perfuração, pressão de injeção do concreto e volume da estaca, assegurando qualidade e controle.

  • A Fundati conta ainda com uma das maiores máquinas do segmento, com cerca de 80 toneladas de peso operacional, garantindo alta produtividade e desempenho. Com equipe experiente e tecnologia de ponta, a Fundati garantiu segurança, qualidade e eficiência na execução de um dos maiores empreendimentos do Oeste do Paraná.

PITACO DO PITOCO

  • Previsível que a pessoa que adquiriu na planta um apartamento do padrão do Miami, de quando em vez, dê uma passadinha para ver como estão as obras. E fica ansioso de nada enxergar para além das cercanias.

  • Como vimos na reportagem, o gigante primeiro desce, para depois subir. O processo de “enraizamento” ainda não está concluído com o bloco gigante e as mais de 400 estacas enterradas a 30 metros de profundidade.

  • As primeiras lajes do Miami só surgirão mesmo sobre os tapumes no último trimestre do ano. Paciência, afinal, não é trivial espetar um grandalhão de 150 metros de alturas na cidade.

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