Já há alguns anos nós nos acostumamos a encontrar imigrantes, especialmente da Venezuela, nos caixas de supermercados. Às vezes, apenas o cumprimento revela a origem estrangeira. Em outras, há tempo suficiente para uma prosa curiosa, para perguntas como há quanto tempo está no Brasil, se gosta daqui e como está sua família.
Recentemente, uma dessas conversas acabou revelando uma história silenciosa de acolhimento, solidariedade e recomeço. Nessa troca de palavras rápidas, enquanto passava os itens no caixa de um mercado da região central, uma venezuelana fez um relato emocionado sobre as dificuldades enfrentadas por familiares que ainda estão na Venezuela. Em meio ao desabafo, um nome conhecido surgiu com gratidão: o de Dom Reginei Modolo, conhecido como Padre Zico. “Eu estou aqui graças ao Padre Zico. Foi ele quem pagou as passagens minha, do meu marido e filhos”, contou, com os olhos brilhando de emoção.
Hoje bispo auxiliar de Curitiba, Dom Reginei confirmou a história. Segundo ele, durante a grande crise migratória venezuelana, em 2018, paróquias começaram a receber pedidos de ajuda para acolher famílias que deixavam o país em situação extrema.
Na época, ele atuava na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Bairro Cancelli, em Cascavel. Após receber um e-mail relatando a situação em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, decidiu mobilizar a comunidade. “Conversei com alguns membros da paróquia e propus que pudéssemos ajudar uma família. A comunidade aceitou imediatamente”, conta.
A família acolhida tinha cinco integrantes, entre eles uma criança autista. O compromisso firmado pela comunidade incluía aluguel, água, luz, cesta básica e apoio inicial durante seis meses. Também foi preciso mobiliar toda a casa. “Eles chegaram sem absolutamente nada”, lembra. “E foi bonito perceber como tudo aconteceu rapidamente. As pessoas foram ajudando, os móveis apareceram, conseguimos organizar a casa...”
A mobilização também envolveu amigos próximos. Parte do valor das passagens veio de uma campanha informal feita pelo sacerdote em grupos de WhatsApp. “Eram cinco passagens... Perguntei se alguém poderia ajudar com R$ 100, R$ 200, e rapidamente conseguimos.”
Segundo Dom Reginei, a acolhida foi além da assistência financeira. A comunidade ajudou a matricular as crianças na escola, auxiliou na adaptação da família e, poucos meses depois, o pai conseguiu emprego na área de logística.
O reencontro mais marcante aconteceu um tempo depois, já quando a família começava a reconstruir a própria vida: “Ela me encontrou na inauguração de um empreendimento e veio me abraçar para contar que tinham conseguido comprar um pequeno apartamento. Foi muito bonito perceber aquela conquista.”
CORRENTE HUMANITÁRIA
Segundo Dom Reginei, a ação desencadeou uma corrente ainda maior de solidariedade. Após a divulgação do auxílio, um empresário o procurou oferecendo uma doação mensal, na condição de anonimato. “Ele disse: ‘Quero doar R$ 5 mil por mês para ajudar pessoas que precisam’. E fez isso durante quatro anos.” A iniciativa também ajudou a fortalecer ações sociais ligadas à Igreja Católica em Cascavel, especialmente junto à Cáritas e à Pastoral Social, que passaram a ampliar o apoio a imigrantes e famílias em situação de vulnerabilidade.
Imigrantes são riqueza humana
Embora a presença de estrangeiros em postos de trabalho de atendimento ao público seja comum na região oeste do Paraná, especialmente em supermercados, muitos deles ainda sofrem preconceito. “Existe uma pobreza humana em quem não consegue perceber a riqueza que essas pessoas trazem”, afirma Dom Reginei, ao comentar atitudes xenofóbicas que ainda persistem.
Para ele, além da dimensão humanitária, os imigrantes representam contribuição econômica, cultural e social. “São pessoas que chegam preparadas, dispostas a trabalhar, a reconstruir a vida. O Brasil recebe gratuitamente uma mão de obra comprometida e produtiva”. O bispo lembra ainda que o acolhimento ao estrangeiro é um dos pilares do cristianismo: “Na Sagrada Escritura, quando Deus fala do cuidado obrigatório, ele fala do órfão, da viúva e do estrangeiro. Essas pessoas não saem de seus países por vontade, mas por necessidade.”
Ao refletir sobre o cenário atual, ele demonstrou preocupação com o aumento da intolerância e da agressividade nas relações humanas. “Precisamos constantemente resgatar aquilo que há de mais humano em nós: acolher, cuidar, amar e exercer empatia.”
De Cascavel a Curitiba: a nova rotina na Igreja
Depois de mais de duas décadas de atuação pastoral em Cascavel e região Oeste, Dom Reginei Modolo, o “eterno Padre Zico”, vive hoje uma realidade completamente diferente. Nomeado bispo auxiliar de Curitiba há três anos, ele passou a integrar a condução da Igreja Católica em uma das maiores arquidioceses do Sul do País. “A missão muda completamente. É um desafio diferente, uma realidade nova”, resume.
A Arquidiocese de Curitiba abrange 11 municípios e uma população de aproximadamente 2,7 milhões de habitantes. São 144 paróquias, mais de 450 padres, mil religiosos e dezenas de instituições ligadas à Igreja, entre escolas, hospitais, creches e obras sociais. Ao lado do arcebispo metropolitano e de outro bispo auxiliar, Dom Reginei ajuda a coordenar toda essa estrutura. Ele é responsável pela região sul da arquidiocese, que reúne 53 paróquias e mais de cem padres. Além disso, acompanha diretamente pastorais ligadas à juventude, família, assistência social e comunicação.
A rotina intensa começa cedo: “É bastante trabalho. O dia normalmente termina às dez, dez e meia da noite...”
SAUDADES
Ordenado padre há 26 anos, ele iniciou a caminhada religiosa ainda adolescente, vindo da pacata Braganey para estudar em Cascavel. Apesar da adaptação à capital, Dom Reginei admite que mantém forte ligação afetiva com Cascavel, onde construiu praticamente toda a trajetória sacerdotal. “Meu ministério aconteceu quase todo aí. Tenho muita saudade.”
ENCONTRO COM O PAPA
Dom Reginei também atua nacionalmente em áreas ligadas à bioética e à Associação Brasileira de Médicos Católicos, o que amplia sua participação em discussões da Igreja no Brasil. Em junho, ele terá uma audiência com o Papa Leão XIV, em viagem com representantes maristas do Paraná. “Quem deu meu curso de formação para bispos foi justamente o então cardeal Leão. Agora, será a primeira vez que vou encontrá-lo como Papa.”
E o futuro? Dom Reginei evita criar expectativas: “Onde Deus me mandar, eu vou.”





