O engenheiro civil Edson José Vasconcelos é paranaense de Cascavel. Quando convidado para vice do candidato que vem liderando as pesquisas de intenção de votos ao Governo do Paraná, Sergio Moro, reagiu entre incrédulo e surpreso: “Não tenho perfil político”, disse.
Dada a insistência do ex-juiz e após consultas aos seus liderados na Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), da qual é presidente licenciado, Vasconcelos decidiu compor a chapa majoritária ao Palácio Iguaçu.
Não se trata de um neófito no meio. O cascavelense percorreu vários degraus associativistas até chegar à presidência da principal federação empresarial do Estado. Presidiu o Sinduscon-Oeste, da construção civil, segmento em que atua, liderou a Acic e atuou no poder público, na condição de presidente do Instituto de Planejamento de Cascavel (gestão Leonaldo Paranhos).
Foi linha de frente na criação do Programa Oeste em Desenvolvimento (POD) e liderou em Cascavel a criação da “entidade das entidades”: o Conselho de Desenvolvimento Sustentável (Codesc), organismo que põe à mesa dirigentes de mais de 70 organizações da comunidade.
Raciocínio rápido e articulado, Vasconcelos surpreendeu a cúpula empresarial da capital ao vencer a eleição para a presidência da Fiep com quase 70% dos votos. A façanha ficou ainda maior ante a força do adversário, que era apoiado por “gente grande” do Palácio Iguaçu.
Até agora, sua gestão na entidade é marcada pela política industrial sob a perspectiva da logística rodoferroviária e aeroportuária, temas nos quais o engenheiro é reconhecido como notório especialista.
Vale lembrar que foi justamente por conta da modelagem das novas concessões de rodovias (os famigerados pedágios) que o clima entre a Fiep e o governo do Estado esquentou, ainda às vésperas da última eleição estadual.
Vasconcelos havia alertado, mais de um ano antes dos leilões, que a sobrecarga de obras no lote 6 - que abarca grandes porções do Oeste e do Sudoeste do Paraná - iria pressionar as tarifas para cima. “Deu ruim”, resumiu o engenheiro, listando as rodovias oestinas como detentoras do pedágio por quilômetro mais caro do Paraná.
ALMA OESTINA
“Cobra criada”, como se diz dos cascavelenses natos que aqui se constituíram na condição de self-made man, a trajetória de Vasconcelos mostra uma simbiose inata com as causas oestinas.
Posição semelhante de Cascavel aconteceu uma única vez, três décadas atrás, quando Mário Pereira foi eleito para a Vice-Governadoria. Ao final daquela gestão, foi governador do Paraná por 9 meses, com o mandato começando em um enigmático 1º de abril.
De fato, parecia mentira. O “sertão” do Oeste colocava pela vez primeira um dos seus naquela cadeira estofada do Palácio Iguaçu, de onde emanam todos os poderes. Vasconcelos construirá a condição de repetir o feito?
O Pitoco inicia nesta edição uma série de reportagens com os postulantes ao Palácio Iguaçu. O conteúdo a seguir traz recortes da participação do pré-candidato a vice de Sergio Moro, Edson Vasconcelos, na reunião da Codesc no último dia 30 de abril.
BILHÕES DO AGRO
As 255 cooperativas do Paraná, com as maiores delas aqui, no Oeste, faturaram R$ 220 bilhões em 2025. A Ocepar projeta para 2030 três cenários e, no pior deles, faturamento de R$ 349 bilhões. No cenário mediano, R$ 501 bilhões, e, no mais favorável, quase R$ 600 bilhões. Não foi o governo que disse: agora nós vamos deixar de vender commodities de baixo valor agregado, milho e soja, para vender carne, agregando valor ao produto. Foram as empresas do agro, o povo daqui. Ou seja, esse segmento vai crescer, e muito! E vai demandar logística, energia e recursos humanos.
APAGÃO NO RH
O PIB do Paraná dobrou porque as empresas cresceram. Os CNPJs que fazem a economia crescer estão dizendo: queremos crescer mais. Podemos triplicar aqueles números das cooperativas? Qual é o desafio desse pessoal para crescer? Empregabilidade na veia! Não tem gente. E não é por falta de recursos humanos em faixa etária economicamente ativa. Alguns programas sociais não têm porta de saída. Eficácia de programa social se mede quando a pessoa auxiliada em momento de dificuldade é reintroduzida nas relações econômicas e laborais.
“DEU RUIM”
Eu quero dobrar a produção, mas não tenho gente. Então o caminho passa pela atualização tecnológica e isso requer qualidade de energia. Tecnologia sem energia não conversa com linearidade de produção. O desastre das indústrias é diário sem infraestrutura energética. 81% dos consumidores enfrentaram problemas de queda ou oscilação no último ano. 87% consideram o preço de energia caro. A percepção de incidentes no fornecimento na zona rural chega a 92%, e, na indústria, 72%. Ninguém percebeu que a infra de energia não acompanhava o crescimento econômico do Estado? Não é problema de um só governo, vem lá de trás. Deu ruim!
“MAIS OU MENOS”
Nós temos um problema grave para resolver. Se depender da Copel para fazer um planejamento estratégico energético do Estado, eles não vão fazer. Se o Estado não cobrar ou não fizer o planejamento estratégico, não sai. Se aparecer um investidor de outro estado aqui e perguntar: vocês têm energia? A gente fala assim: “Mais ou menos”. Fizemos na Fiep o Observatório da Energia. Decidimos não abrir os dados porque, se os abrisse ao público, empresa que estava falando em vir para cá não viria mais.
PORTO ESTRESSADO
Alegam-se problemas ambientais para expandir o porto. Lógico, é preciso promover o desenvolvimento sustentável. Mas como é que a gente fala para esse povo, todas as cooperativas, que eles não podem crescer mais? A nossa infraestrutura portuária está estressada hoje. Nós temos um aumento de carga de 37%. E nós não temos mais espaço no Porto Paranaguá. A paranaense Coamo está fazendo um porto na catarinense Itapoá. Porto nem precisa ter dinheiro público, se conseguir licenciamentos, a iniciativa privada vai levar. Os portos de Santa Catarina estão batendo recorde, nós estamos batendo teto.
TAXÍMETRO NO NAVIO
O porto é como uma caixa-d’água. Tem cano que entra e cano que sai. O cano que sai é aquele que cria um problema, a fila de naviozinho no horizonte. Se o cano de saída é maior que o cano que entra, você não tem fila de naviozinho. Navio parado é um táxi de taxímetro ligado. O setor de fertilizantes, este ano, vai pagar R$ 1 bilhão de taxímetro ligado. Quem paga isso? O produtor, porteira para dentro. Isso é custo Brasil, o preço da ineficiência. Alguém precisa ter coragem de dizer isso às empresas que cogitam dobrar de tamanho. Batemos no teto, gente!
“P#%@ QUE O PARIU!”
Falei esses dias com um prefeito do Sudoeste do Paraná. Ele defendeu a concessão das rodovias como único jeito de receber as obras que precisa. É um direito dele sonhar com o pedágio. Porém, a expansão da malha pedagiada trouxe um baita problema: a carga demasiada de obra traz consigo tarifas gigantes. Razoável seria que parte das obras fosse feita pelo poder público. Nossa região terá uma tarifa por quilômetro 70% superior aos lotes de outras regiões. E, concluindo a duplicação, vem mais 40% de reajuste no lombo! P#%@ que o pariu!
SYNGENTA E “MUFFATINHOS”
Não vamos atrair investimentos se não tiver infraestrutura aeroportuária. O Paraná tem três aeroportos regionais. Não coloco Foz na conta porque é ponto turístico internacional, outro público. Falo de aeroporto regional para negócios. Nós perdemos a Syngenta aqui por causa do ataque, mas também por falta de logística. Perdemos o centro administrativo dos Muffatinhos porque ninguém vai receber um diretor de uma empresa de classe mundial tendo que descer em Foz e depois pegar a pista simples para chegar aqui. E, se não tiver infraestrutura, nós não vamos conseguir ter uma empresa de classe mundial no interior. Vai tudo para a Região Metropolitana de Curitiba.
FUGA DE CÉREBROS
Território desenvolvido não é Cascavel com 1 milhão de habitantes. Território desenvolvido é Cascavel segurar aqui sua juventude, seus talentos, o principal ativo de qualquer cidade, de qualquer empresa: recursos humanos. É oferecer oportunidade de alto valor agregado, não emprego de salário-mínimo. Esse problema de fuga de cérebros e da juventude não é exclusivo de Cascavel. Por que a juventude quer ir embora do interior? Porque não tem infraestrutura básica nem perspectiva. Então, nós temos que entender o poder da transformação pela oportunidade.
PERFIL DO MORO
Será uma disputa duríssima. Será um embate grande, o uso da máquina do Estado será pesado, mas vale ressalvar: nós não somos contra o Governo Ratinho. Nós nunca atacamos o governador e não vamos atacá-lo. Tudo o que for bom no governo será mantido. Não tem isso de desfazer programa porque não fomos nós que lançamos. Isso não faz parte do perfil do Moro. Porém, a hora da mudança chegou e alternância no poder é saudável para a democracia.
O ÓDIO DO PCC
A decisão de aceitar compor a chapa majoritária com o senador Sergio Moro não foi fácil. Não foi no primeiro pedido. Eu expliquei para ele, argumentei que não daria, que não tenho perfil político. O Moro tem uma rejeição nas pesquisas, que é mais que rejeição, é ódio. O PCC tem ódio dele. Quer matá-lo. O PT quer matá-lo. A rejeição dele é consolidada. Se eu tirar uma foto ao lado dele, se eu for visto, isso passa para mim, passa para os meus filhos, para a minha família. Não é fácil. Porém, ele é um cara que provou o que pode fazer pela nação. Convite feito e reiterado, eu não poderia me omitir. Eu me sinto honrado de estar ao lado do Moro.
QUEM É ELE?
Edson José de Vasconcelos é natural de Cascavel. Empresário e líder associativista, foi eleito em agosto de 2023 presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná. Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Paraná, com MBA em Gestão de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e em Negócios Internacionais (International Business) pela Ohio University, nos Estados Unidos.





