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Beto veste a camisa 10

Prefeito de Toledo já foi zagueirão de várzea que chutava para o alto e ganhava (ou perdia) o porco do torneio; hoje, atuando na meia direita, embarca no voo do governador em resenha ponderada que aponta para o centro do campo

Beto Lunitti, gaúcho de Carazinho, 60 anos em agosto próximo, meio século de Toledo, completados em janeiro último é o caçula de uma família de dez irmãos. Aqui começa a série de dez, que faz lembrar a transmissão ao vivo pela TV das notas atribuídas as escolas de samba do Rio, com aquele sotaque carioca do “déééizs”.

Agora, em 2024, Lunitti disputa sua décima eleição. Mais perdeu do que ganhou, foram sete derrotas contra três triunfos. Porém, nas últimas três que disputou, ganhou duas. É um político em ascensão em um território difícil: a oposição a ele em Toledo é vencedora - encadeou mandatos públicos com Sperafico, Genari, Derli Donin, Lucio De Marchi e José Carlos Schivianatto, entre outros menos votados.

Nas eleições que disputou pós o conturbado período em que Dilma Roussef governou o Brasil, Lunitti enfrentou outro adversário osso duro: o carimbo ideológico. Aliançado com o PT em pleitos da época, foi fácil hostilizá-lo junto ao eleitorado majoritariamente anti-petista com a alcunha que serve para todos que não rezam nas cartilhas messiânicas: “cumunista”, assim mesmo com “u” – o domínio do idioma pátrio não é forte desta turma. 

Em algum momento a alcunha prejudicou a carreira do prefeito. Surpreendeu a derrota dele para Lucio ao disputar a reeleição em 2016. Dois anos depois, com a ascensão do bolsonarismo, outra vez os rótulos ideológicos foram armas nas mãos dos adversários. Lunitti tentou uma cadeira na Assembleia, sem sucesso.

A TRAJETÓRIA

Neste ínterim, entre a derrota para o PP e a disputa de 2018, a longeva vida empresarial ganhava seus últimos capítulos. Voltando esse filme para o início do rolo, vale dizer: O batente começou cedo, ainda na infância, na “bodega” da família. Aos 20 anos de idade, Beto Lunitti escuta de um pai cansado da lida que o pequeno comércio seria fechado.

Então o jovem decide propor uma sociedade com o progenitor e um amigo de infância. Ali, na primeira metade dos anos 1980, nascia a rede de supermercados com o sobrenome da família e uma trajetória empresarial jamais vista no varejo toledense. O Supemercados Lunitti, em seu auge, chegou a somar oito lojas e 500 funcionários, figurando entre as dez maiores redes regionais do Paraná. Aqui o número 10 volta para a conversa. 

MERCADO DA POLÍTICA

Ainda lambendo as feridas do duro embate de 2016 quando perdeu a disputa reeleitoral, Lunitti percebeu que não dava para conduzir a carreira política e a empresarial em paralelo. . Então decidiu afastar-se da atividade no varejo, repassar os bens pessoais aos herdeiros (filhos) e baixar o CNPJ, cujo espólio está em processo de inventário.

A veia política falou mais alto. Na adolescência, como todo “piá” católico do bairro, integrou o JUJA (Juventude Unida do Jardim Porto Alegre), no movimento que foi precursor da Pastoral da Juventude, com forte influência dos Freis Menores Missionários, os “Capuchinhos”, franciscanos que adotam o voto de pobreza e atuavam como animadores do JUJA. Dali veio a pegada religiosa, espiritual, e também a social e política.

Na esteira dessa participação, torna- -se “candidato do Porto Alegre” na eleição de 2000, tornando-se vereador pelo PDT para o mandato 2001/2004. Cumpre o mandato de vereador na oposição minoritária ao prefeito Derli Donin (PP).

PONTO DE RUPTURA

A sequência da carreira é bem conhecida, mas uma disputa lá de trás, em 2004, trouxe um ponto de inflexão. Ao disputar voto a voto com José Carlos Schiavinatto, perdendo a disputa da Prefeitura por menos de 3 pontos percentuais, Lunitti finalmente produz avarias nos alicerces até então indestrutíveis do PP.

Schiavinatto restaurou as fundações do edifício político situacionista e fez um governo técnico quase impecável, consagrando-se como um dos melhores prefeitos da história de Toledo. Era imbatível na disputa a reeleição em 2008. Lunitti foi o segundo mais votado, credenciando-se para vencer Poletto (candidato de Schiavinatto) na eleição seguinte, em 2012.

CALOS DO OFÍCIO

Finalmente o supermercadista teria a oportunidade de mostrar que poderia se revelar um bom gestor público até que surgiu o percalço de 2016 ao buscar a reeleição. Dali, da dor, surgiu um político calejado. 

Na véspera das eleições de 2020, após um período sabático em que reviu conceitos e aprimorou o entendimento da dinâmica política, Lunitti fez um gesto marcante e até impensável no “Grenal” político de Toledo: procurou o então deputado federal Schiavinatto e propôs um processo de pacificação, harmonização política, união de forças por Toledo.

Era algo até então impensável, como reunir israelenses e palestinos em torno da mesma mesa. Mas a proposta foi bem aceita e um pacto foi firmado, prevendo a construção conjunta deste novo momento, iniciando por uma campanha propositiva, sem ataques pessoais e artimanhas. 

A REVANCHE 

O entendimento de alto nível com Schiavinatto não matou a rivalidade – e nem se esperava que isso pudesse acontecer – mas elevou o nível da campanha eleitoral mesmo em um ambiente de revanche, já que Lunitti enfrentaria seu algoz na eleição anterior, o projeto reeleitoral de Lucio de Marchi. Com o eleitorado dividido quase ao meio, o MDB bateu o PP por pouco mais de 2 mil sufrágios.

Schiavinatto faleceria tragicamente de Covid um ano depois tornando incerto e não sabido o “pacto de não agressão” entre o grupo liderado por Lunitti e o PP local, agora sob liderança de Dilceu Sperafico – veterano quase octagenário que já havia vestido o pijama de poá e retornou ao Congresso Nacional com o vazio deixado pelo passamento da principal liderança do grupo.

CAMISA 10

O movimento de pacificação costurado com Schiavinatto em 2020 mostrava uma virtude rara manifestada por ambos os líderes em tempos de ódio político e lacração: o diálogo civilizado, a moderação, a ponderação, o debate em torno do que de fato interessa, legando os filigramas ideológicos para terraplanistas e nichos maluquetes.

Schiavinatto, ex-prefeito em dois mandatos, investido do mandato de deputado à época e Lunitti, com bagagem semelhante no Executivo, chegaram a um ponto de percepção que parece ainda distante de compreensão da militância histérica. 

E o ponto é esse: discurso extremista em rede social, plateia para o “tiozão do zap” viralizar fake news, querelas ideológicas na linha “banheiro unisex” ou “mamadeira de piroca” não pavimentam um único metro de asfalto, não abrem uma única vaga no CMEI, não tiram um único paciente da fila de cirurgia.

Aqui surge a camisa 10. Para uma analogia extraída do mundo do futebol, o atleta que leva o número 10 é geralmente um meia. Pode ser um meia direita ou meia esquerda. Pode ser ambidestro. Pode levar a braçadeira de capitão, ou não. 

É um líder que pode lançar a bola para esquerda ou para a direita, mas que raramente frequenta as extremidades do campo. Convertendo para o mundo da política, um líder que transita entre a centro esquerda e a centro direita sem gritaria, sem canelada. Sujeito que joga firme, mas na bola.

Ronaldinho Gaúcho olhava para a esquerda e passava a bola para direita. No lance seguinte, olhava para a direita e rolava para a esquerda. O jogador posicionado no meio do campo que consegue conduzir a pelota com a cabeça erguida, conquista essa possibilidade de enxegar o todo, já que homens públicos em cargos executivos não são gestores somente daqueles que o elegeram, mas do conjunto da sociedade, para todo o estádio, independente das cores das camisas.

Falta dura e fratura exposta

Em 2016, com a derrota acachapante para Lúcio De Marchi, Beto Lunitti foi dado como morto. Falta dura, contusão dolorida, fratura exposta. Saiu de maca direto para a ambulância da Unimed no Estádio Municipal 14 de Dezembro. Era incerto se voltaria aos gramados, ou os legaria aos quero-queros, pendurando a chuteira.

Como futebol é uma caixinha de supresas (expressão que carece de originalidade, é verdade), em 2020 as urnas reabilitaram um Beto mais maduro, mais ponderado, mais preparado para a atividade política e para o exercício do mandato.

Com a morte de Schiavinato, e Sperafico já buscando uma posição no campo que exige menos pulmão -tipo “lateral direito” da pelada, camisa 2, na sombra do eucalipto - a história abriu um cenário improvável na política local, onde Lunitti parece ser a única liderança relevante com fôlego para vôos mais altos, uma sobrevida para, digamos, mais uma década e meia ou duas.

O passo seguinte então foi a filiação ao PSD de Ratinho Junior. Embora compartilhasse com Requião as loas à Carta de Puebla, Lunitti estava desconfortável na sigla. Bob trocou o MDB pelo PT e Lunitti deixou o “manda-brasa” pela sigla do camaleônico Gilberto Kassab. 

A aproximação com o governador guarda algo de afinidade mas também de pragmatismo. A afinação vem da moderação. Ratinho foi habilidoso em diminuir a temperatura política no Paraná, sempre polarizada entre Requião contra alguém.

O governador unificou a bancada paranaense no Senado e construiu interlocução com os deputados federais eleitos pelo Paraná. Pautou seu mandato em um palavreado cuidadoso na política, sem gritaria, focado em não produzir marolas.

O pragmatismo de Lunitti vem da percepção da inevitável ascensão de Ratinho Junior, seja disputando a presidência da República, cenário menos provável, a vice-presidência ou o mais provável, uma vaga no Senado, que conquistaria sem tirar o pé do Santa Felicidade, bairro gastronômico em que estabeleceu morada, na capital do estado.

OVERBOOKING

Hélice de teco-teco ou cauda de Boeing? Lunitti preferiu o jato do Ratinho, que como sabemos, está lotado, talvez até acometido de overbooking, mas mesmo para a turma das últimas poltronas, haverá oportunidades, e o político oestino que passou a vergar a camisa 10 após as caneladas que levou, parece bem posicionado. 

Com índices de avaliação do governo (ótimo ou bom) na casa dos 60%, segundo aferição do Instituto Excelência Pesquisas, divulgada em dezembro último, e aparentes desfalques no time da oposição, as estrelas parecem alinhadas em céu de brigadeiro para o voo da reeleição.

Soma-se a ísso uma percepção de cansaço do eleitor com posições extremadas, como a gritaria da internet e o tiozão doutrinador do zap. Há sinalizações de uma inclinação do eleitorado para o centro político, uma espécie de volta a razão, após um período conturbado de paixões ardentes e corações partidos.

Lunitti é extrema direita? Não. É esquerdista? Também não. Ele se define como um democrata cristão, que confere relevância aos aspectos sociais em sua prática política. “Sou um político de centro, que acredita que a riqueza (o capitalismo) tem de estar a serviço da vida (o social), como preconiza a famosa Carta de Puebla”, costuma dizer.

Lunitti vem de uma trajetória singular. Nunca fez parte de entidades, sindicatos ou clubes de serviço, ou maçonaria, que asseguram “base” e costumam dar visibilidade às lideranças. É um outsider, espécie de self-made man. É, na essência da palavra, uma liderança política popular, em quem o peso da camisa 10 parece não afetar.

Em tempo: mensagem publicitária em placas de rua contratadas pelo deputado Elton Welter (PT) para divulgar a chegada de um campus do IFPR em Toledo foram vandalizadas no último dia 15 de março. Segundo o deputado, “o grau de adoecimento social que algumas pessoas desenvolvem, envenenadas pelo ódio e mentiras espalhadas nas redes, se prestam ao cometimento de crimes, depredação e até assassinatos, como o ocorrido com Marcelo Arruda em 2022, vítima de crime de ódio em Foz do Iguaçu”.

Afora a selvageria do ato, vale destacar: a ação dos vândalos serviu apenas para dar mais visibilidade a mensagem que o parlamentar quis passar. A censura, como se sabe, é burra.

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