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Itapema exorciza sombras

Vizinha da glamourosa “Dubai Brasileira” olha para cima para preservar o sol, mas descuida com as calçadas

Itapema é vizinha de Balneário Camboriú (BC), auto-intitulada “Dubai Brasileira”. As duas estrelas do litoral catarinense estão separadas por apenas 14 km. Mas há diferenças fundamentais entre as vizinhas tropicais. BC permitiu espetar espigões na orla. Foram tantos e tão elevados que projetaram imensas áreas escuras sobre a praia.

Não havia como tirar os prédios dali, então o jeito foi “tirar” o Oceano Atlântico, que foi recuado na recente “engorda” da faixa de areia ao custo de quase R$ 100 milhões. Itapema luta bravamente para não cometer o mesmo erro, apesar da pressão natural do mercado imobiliário local.

Ao caminhar à beira do mar do Canto da Praia em direção a Meia Praia, e olhar a direita, é possível verificar os grandalhões em construção devidamente recuados, a pelo menos 100 metros da orla. Itapema também preserva outros cuidados, como impedir o acesso e estacionamento de caminhões na alta temporada.

O desenho urbano da cidade é irremediavelmente estrangulado. A marginal da BR 101 é uma das poucas ligações de um extremo ao outro. As ruas são estreitas e nos dias em que o Pitoco esteve lá, na terceira semana de novembro, inúmeros prédios em construção concretavam suas lajes embaixo de chuva.

É que, muito em breve, entra em vigor o período de restrição de tráfego para dezenas de caminhões-betoneira que operavam ali simultaneamente embaixo das torneiras abertas de São Pedro. Empresários que mantém negócios na construção civil no litoral de Santa Catarina e em Cascavel apontam estranhamentos, neste aspecto. “Em Itapema o pessoal trabalha embaixo de chuva mesmo. Estamos correndo contra o tempo. Em Cascavel a cultura é diferente, choveu a obra pára”, disse ao Pitoco uma executiva do segmento.

CALÇADAS, LÁ E CÁ

Cascavel ainda não resolveu seus problemas com as calçadas. Que o diga a mamãe empurrando o carrinho de bebê, o cadeirante, o idoso, a mulher de salto alto. Mas já foi pior. A padronização por paver drenante deu ótima contribuição ambiental e de mobilidade.

Itapema está mais descuidada com suas calçadas, notadamente nas ruas secundárias. O sistema de drenagem também é precário. Havia ruas alagadas a 50 metros da orla logo após um chuvisco.

Em alguns pontos o passeio tem pouco mais de meio metro de largura e surge incrivelmente inclinado, testando o equilíbrio e fazendo escorregar lateralmente o pé no chinelo do vivente. São as cicatrizes do desplanejamento.

Por outro lado, o fenômeno dos espigões empilhando apartamentos de luxo muda este cenário. Onde está os prédios o passeio é bem cuidado. Quem conheceu Itapema duas décadas atrás não irá mais reconhecê-la. As pousadas precárias e apertadas para um veraneio barato foram ao chão, poucas restaram em pé. A ordem é verticalizar, e o céu é o limite.

Somente a maior construtora local, a Dallo, está tocando 16 obras simultaneamente. E correndo contra o tempo, já que logo as “betoneiras móveis” serão impedidas.

APAGÃO DE MÃO DE OBRA

No período de restrição aos caminhões a obras param. É quando a peãozada da construção civil tira o capacete e a botina, veste uma regata e chinelos para ir a praia na condição de vendedores ambulantes ou garçons. Lá todo mundo tem duplo ou triplo ofício, conforme o calendário do ano. 

O apagão de mão de obra de Itapema é tal qual de Cascavel, ou ainda mais grave. É comum encontrar garçons ou operadores de caixa falando portunhol. Se há argentino turista em BC, praia de los hermanos, há muitos venezuelanos em Itapema exercendo ofícios modestos.

Na loja de Itapema da maior rede supermercadista de Santa Catarina, o Super Kock, o Pitoco ouviu um anúncio curioso no sistema de som que mescla músicas com informes. A rede implora por mão de obra e a mensagem vinha bem apelativa.

Quem topasse trabalhar em dezembro no supermercado para uma das inúmeras vagas, que ia de operador de caixa a empacotador, passando pelo auxiliar de açougue, ganhará no primeiro dia de trabalho uma cesta básica.

Tanto lá, estado mais bolsonarista do Brasil, como aqui, empresários alegam que benefícios sociais como o Bolsa Família afetam a disposição dos mais humildes para o trabalho formal.

 

Visite Itapema, vale a viagem!

 

Para quem não se importa com os apupos da alta temporada que se descortina em breve, vale muito o passeio a Itapema. As vizinhanças também podem ser incríveis, se bem escolhidas.

Há lugares para o agito, como BC ou Bombinhas. Há lugares intermediários, como a praia de Laranjeiras, onde a estrutura gastronômica está sendo ampliada após décadas de batalha judicial.

E há, ou pelo menos havia no meio deste novembro, praias quase desertas, onde é possível ouvir o mar trombando com pedras gigantes e espumando na areia, como Taquarinhas, lugar incrível, que pode ser visualizado em um mirante na sinuosa estrada interpraias.

Para os mais desinibidos, todo dia tem “festa do cabide” na Praia do Pinho. Enfim, alternativas não faltam na bela e Santa Catarina.

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