* Eduardo Sciarra
Enquanto produtores rurais do Paraná lutam contra pragas,
adversidades climáticas, condições de financiamento e diversos
outros obstáculos para fazer da agricultura paranaense uma das
mais eficientes do mundo, na
outra ponta deste processo a ineficiência do porto de Paranaguá,
principal corredor de exportação do
Estado, estrangula os ganhos dos produtores e joga na vala comum
da incompetência todo
trabalho e dedicação dos nossos agricultores.
Se da porteira para dentro encontramos a marca da produtividade,
fora das propriedades começa a Via Crucis
da agricultura, enfrentando diversas deficiências logísticas,
até chegar ao porto, onde seu ganho foi,
nestes últimos anos, finalmente crucificado pela inoperância e
ineficiência da Administração
dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa).
Durante a gestão da família Requião nesta autarquia não foram
poucos os desmandos e trapalhadas que colocaram de joelhos
nossos produtores rurais, que acompanham suas margens de lucro
serem
dilaceradas pelo custo operacional da incompetência portuária,
que já rendeu dois pedidos
de intervenção federal da Agência Nacional de Transportes
Aquaviários (ANTAQ) e
relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) apontando várias
irregularidades.
Mesmo com todos estes problemas, por muitos anos Paranaguá
aproveitou a proximidade de grandes estados produtores de grãos,
como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, que utilizavam
nosso corredor de exportação para escoar sua produção. Mas esta
realidade está para mudar.Outros portos
mais eficientes caminham neste momento para ocupar este espaço.
Um exemplo é o porto de Itaqui, em São Luiz do Maranhão. Em
pouco tempo, este terminal terá sua capacidade nominal de
embarque aumentada para 5 mil toneladas/hora, enquanto Paranaguá
tem desempenho de 1,5 mil toneladas/hora. Isso significa que
enquanto a concorrência carregará um navio por dia, por aqui o
mesmo
navio demoraria três dias para ser carregado. Pior, a
profundidade dragada não permite a saída com
carga máxima, pois corre-se o risco do navio bater no fundo. A
portaria da Capitania dos Portos
do Paraná nº 80, de Novembro de 2009, estabeleceu o calado
máximo de 12,5 metros,
entretanto, inclui várias restrições adicionais que
habitualmente rebaixam
os níveis de carregamento.
Segundo especialistas, a carga útil de um navio em Paranaguá
diminui em 10 mil toneladas a cada 60 mil devido
à baixa profundidade do canal de acesso. Como os navios cobram
por dia de trabalho e não por carga
transportada, o custo do transporte torna-se fonte de prejuízo
permanente para nossos produtores
rurais, pois além da demora para serem carregados, os navios
precisam esperar outros em uma fila
marítima que remete às filas de caminhões a caminho do porto.
Existem casos de navios que
aguardaram mais de 40 dias para serem carregados.
Outra questão foi o acidente com o navio Maersk Naples, que
bateu no fundo em uma área onde a profundidade deveria permitir
sua passagem com folga. Este fato, ocorrido em 2007, é objeto de
um processo de apuração
pela Marinha brasileira, mas os contornos misteriosos deste
episódio não foram explicados até hoje.
Em face desta realidade, a analogia mais correta para a
administração do porto de Paranaguá seria a de um torniquete,
que estrangula os ganhos da agricultura paranaense. Nesse
cenário desolador vende-se a idéia
de que a construção de um novo cais, o cais Oeste, poderia
resolver o problema da demora no embarque, aumentando o número
de berços disponíveis para atracação. Quando assumiu o governo,
Requião teve
a oportunidade de realizar esta obra com recursos do governo
federal, mas não o fez, alegando que
o valor estipulado para a realização estaria superfaturado.
Chamou para si a incumbência de
tocar um projeto mais barato, devolveu o dinheiro federal, e até
hoje
o projeto não andou um centímetro.
A idéia de que a construção de um novo cais resolveria o
problema de Paranaguá é ilusão. Os berços existentes são mal
aproveitados porque não operam com uma velocidade compatível com
o movimento do porto. Seria possível processar o dobro da
capacidade operacional se adotássemos sistemas de carregamento
de maior velocidade, solução que liberaria um novo cais para
outras cargas.
Entretanto, ainda assim o porto trabalha com uma capacidade
ociosa na área de granéis agrícolas de,
no mínimo, 30%.
Neste novo cenário é preciso atentar também para uma mudança na
natureza dos produtos exportados. Se a soja que vem dos estados
produtores deve se deslocar para outros portos, no Norte e
Nordeste do país, Paranaguá poderia fortalecer o transporte de
outros produtos, como açúcar, por exemplo, tanto a granel quanto
em contêiner, que hoje responde por 40% do total exportado de
soja e tende a dobrar este
volume nos próximos dez anos. Ou a carne, cujo valor agregado
é imensamente maior do que o de grãos.
Infelizmente o quadro desanimador que encontramos em Paranaguá
tende a se agravar. Caso não seja corrigida sua rota
administrativa, corre o perigo de naufragar frente às
iniciativas dos portos vizinhos, que dão um banho de competência
na nossa Appa. Aliás, nossa salvação é a existência dos portos
de Navegantes,
São Francisco do Sul e Itajaí, que passaram a ser os mais
importantes portos conteineiros
para escoamento de cargas do Paraná. Com o fim do ciclo Requião,
esperamos
que este torniquete pare de estrangular o crescimento econômico
do Paraná.